AGOSTO 2010

cafésolo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DESFOQUE



Os ponteiros avançam
na madrugada, dominando-a
como a uma extensa avenida.
Apenas os minutos gelam,
tal como os dedos frios sem sangue.

Não existe trânsito ou semáforo
que estanque a tua pressa
furiosa. As pálpebras tremem
delicadas, a cada solavanco irreflectido
em cada mudança veloz.

E tu, julgas ter uma razão a mais
para fugir aos desígnios da tua presença
ao estilhaço da tua ribalta.
No silêncio dos teus passos, embates
de frente com a tua intrepidez,

só o desfoque do tempo, poderá ditar-te
a palavra fim.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PERCURSO



Percurso
reproduzido
chego perto do refúgio
do meu resguardo
e sinto,
essa bolha gigante
que me envolve
e conduz
naquilo
que esboço;

o carro flutua
por certo,
não sei.
É estranho, mas sinto
«simultaneus» vazio
um cansaço sem suor
o devaste no corpo,
duma mente que marcha
e não pára,
jamais;

depois acordo
vivo
imediato dia diferente e,
a sensação torna
outra vez.
Intrincadas são
as palavras colhidas
que nos fulminam
mais além.
Diz-me, porquê?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

CEGUEIRA DISFARÇADA



Seguiam cegos pelo caminho,
num destino incendiado pelo calor
das passadas irrequietas.

A monte, estava o amplo impulso,
saltava livre ou, aprisionado, seria?
Vivia aliás, ciente de estar amarrado

pela raiz brava, dum punhado de amor,
que ambos julgavam lhes pertencer.
Impuro e rude, assim era o ócio, com que

juntos brindavam e bebiam a jusante,
num refluxo que os prensava adiante.
Inauguraram frequentes garrafas

antigas & vertidas, de colecção;
na ressaca do entusiasmo, exibiam
as réstias da vidraça, junto ao velho

alpendre abandonado na casa.
Aquela cegueira disfarçada, sobrevivia,
em cada mão dada, vazia de sentido,

a cada erva espontânea, nascida no quintal.

domingo, 11 de outubro de 2009

MIL FONTES



Respirava-mos fundo naqueles dias, pouco menos
que a perfeição, numas férias improvisadas
mas, entusiastas. Lembras-te? Decidimos a ida
com a enorme vontade de querer-mos estar sós,
de inscrever aqueloutros momentos inolvidáveis

no nosso ainda tenro texto. Depois, o telemóvel tocou,
naquela ânsia que me vestiu o rosto, atravessamos
o país em propósitos absolutamente meus,
como poderia eu esquecer-te?
Foste a peça essencial daquela urge engrenagem,

como pude desvalorizar-te assim?
Mais além, estava na iminência de entender
que a nossa confluência teria os dias contados,
a ufania venceu. Prescreveu-nos porém, súbitos
remédios, que tomámos sem hesitar.

Apanhaste-me de improviso, chegaste veloz
como um trovão fulminante, que se espessou,
sobrecarregando uma pilha de palavras perdidas,
entre a espuma e a demanda das ondas serenas,
daquela costa Alentejana, algures em 2001.

sábado, 10 de outubro de 2009

«FALLING THE STAR»


Partiste depois daquela quente e singular noitada de copos,
encarceraste-te entre as quatro paredes do teu quarto
em Coimbra, onde milhares de fotocópias e dezenas
de sebentas, se riam de ti, até altas horas da madrugada.
Perguntava-me repetidamente, o que seria feito de ti,
onde e com quem estarias. E eu, curiosamente, sempre
te imaginava numa mesma cena, debruçada sobre o teu
busto, à luz de um candeeiro que iluminaria as tuas leituras.
[Mais tarde pudemos esbater entre risadas, essa imagem
deturpada que não passou disso mesmo, um erro de casting,
apenas possível pela própria envolvência, daqueles tempos.]

Volvíamos em cada fim de jornada, para as vulgares

férias académicas. Constatava-mos depois, que Macedo
se mantinha imóvel, talvez avesso a mudanças bruscas.
Somente os bares, tascas e outros cafés sobreviviam intactos,
porque nós crescíamos e anotava-mos toda e qualquer mutação
alcançada na singularidade de cada traço de cada gesto.
Guardei no entanto, desusadas dúvidas desse tempo:
- Onde guardas afinal, aquela colecção de desejos que reivindicavas,
pestanas coladas aos céus, em noites abafadas de verão?
Sabes o que guardo desse tempo? Alguns cheiros e outros pedaços
de pequenos nadas; que a mais ninguém dizem tanto,

--------------------------------------------------quanto a mim.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

MADRUGADA NO TEU PUZZLE



"Puzzle"
Jogo de paciência composto por uma infinidade

de fragmentos recortados que se devem combinar
para formar uma imagem.

Esperaria, horas a fio por ti,
mesmo que não fosse essa
a história que os teus olhos
vissem contada pelos meus.
Naquelas madrugadas, haveria
lugar às conversas famintas
de basto alimento - o lugar aos abraços e,
sorrisos desconexos entre si.
Surgiriam jogos desenhados
numa infinidade de projectos
que desmontaríamos juntos.
Dividiria pelas sarjetas as agruras
que me estorvam, num inverno
que está para vir, espantaria os males
e os remédios que nunca hei-de
ter, construiria o mais acertado
poema,
só para poder tocar
no teu recôndito existir.

E tu? Quanto tempo estás disposta esperar?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

LUSCO-FUSCO



Disseste:
«Vi o crepúsculo no teu olhar…»
Quererias dizer:
A decadência, o declínio, o ocaso ou o amanhecer?

Eu vejo tantas coisas que não condizem,
tantas claridades frouxas que precedem
indubitáveis e surpreendentes clarões
(tantas vezes vindos de um absoluto nada).
Tantos bafos são (ou parecem ser) uma espécie
de expiração artificial, cancerosa até,
como a acidez das palavras expelidas,
no sufoco de um vómito, que se esfacela silencioso.
E era tamanha a dissensão exposta desse teu espelho
lascado, irreflexivo, que acabei por me esconder,
atrás de uma qualquer argumentação escanzelada,
que nunca cheguei a aduzir. Morreu, tal como a tua.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

CORPO A NU



Externo eriço esse peito,
sem rede ou trapézio,
solto ou seguro de si?
Adivinha-se o toque,
dessa mão que amarra
sem soltar a costura
deslassada do quadril.
Seiva doce, brota quente,
teu vulcão em lava escorre,
por ti ou per si?
Sente o sulco sem arado,
pura fome insaciada,
mero desejo carnal,
desse corpo sem sangue.
Pretéritos momentos
apagam-se sem ardor,
definham & morrem
sob as mãos deste tempo,

irregular?

domingo, 4 de outubro de 2009

ÂNCORA D'OURO



Estacionamos o carro naquele jardim sem gente,
seguimos sem enganos pelo velho trilho do eléctrico,
de encontro à turba diversa e ressoante.

A chuva avançava tímida, sem crença.
Daquele muro granítico que improvisamos
como assento, facilmente resvalaram inúmeros

assuntos de circunstância, risadas e olhares
permutados no desengodo de uma noite
que crescia, rasgada como nós. Na madrugada,

descobrimos depois outros bares, galerias
de diferentes intenções, talvez mediadas
em preconceitos que se exibiam pelo descrédito nu,

das horas que avançavam e nos encaminhavam
de regresso a casa. Do último fotograma relembro:
a pressa e a sorte com que resgatámos a noite

__________________________o início de uma revolta.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

UM HOMEM SÓ



Um homem de meia idade treme,
tem na mão, o papel, o argumento
ou a escapatória daquilo que o trás por ali.

Esconde as palavras que parecem
dissimular-se por detrás dum bigode
nervoso. O olhar foge-lhe para a mão

onde transporta a sua arma de caligrafia
urgente, vem assinada por alguém
que lhe reconhece certamente os passos

e as angústias, obstáculos de toda uma vida
que deixou de lhe despertar o interesse.
«Eu quero cumprir!»

Repete ele a custo, numa espécie de discurso
com que engana a sua própria existência.
O destinatário do recado finge acreditar

na sua encenação.
O homem bate em rápida retirada
prometendo regressar com brevidade,

mas só ele sabe, o quanto quer fugir dali,
o quanto é amarga a figura que representa
neste cilíndrico mundo cruel, que o esmaga,

sem contemplações.