AGOSTO 2010

cafésolo

terça-feira, 19 de abril de 2011

«smoke & ashes»















                            «One flash of light...
                                        but no smoking pistol»

                                                    - David Bowie -


Era de um tal dilúvio de abril
a chuva que embatia contra
a resistência telúrica da noite.

Parecia resistir à combustão
das palavras que partiam em
estranhos motores de incerteza.

Havia um último cigarro [aceso
pelo fogo improvisado dos versos]
que se encerrava ao vazio da noite

entre o fumo & a cinza do poema. 
E a secura que nos arde no peito,
é o silêncio aceso  pela madrugada.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

fmi - douro tinto
















Cansa-me esta treta ou espécie de cegueira.
Depois a merda é sempre a mesma, quiçá
uma sigla com peso a mais; [mais ainda que
a cotação «rating» ou seu real significado].

Desligo a tv [sem som há mais de 3 horas]
e centro-me na batalha do dia que hoje foi.
Não trago nada de novo para vos contar
caros amigos, o sentido é sempre o mesmo,

e o espírito esse, torna-se repetitivo. Não julgo
que me deva deteriorar por determinadas
interacções sócio-económicas das quais padeço.
Aliás, tenho uma espécie de índole difícil

que ainda assim, por aqui anda tão perdida:
quanto a dos outros que se perdem pelo
caminho para me ler. Cigarros e um vinho
tinto [douro superior] é tudo quanto tenho

para vos oferecer meus caros «devedores»,
para que a morte nos separe de uma forma
mais simpática, pode ser?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

inércia

















Avanço pela noite
contra o debote baço das fotografias.
Conheço «de cor» este lugar, este país,
esta espécie de inércia histórica
que nos abraça familiar
desde a mais longínqua infância.

Por vezes penso que não te pertenço
que não te desejo
que não deveria ter nascido aqui.
Por isso avanço contra inércia,
contra a cidade, contra o reino da apatia.
E as palavras a arder  contra os limites do futuro.

terça-feira, 5 de abril de 2011

como um corpo aceso

















Não perceber as voltas ou melhor,
as palavras que levitam em torno
de um sonho diagonal à manhã
[é norma ou normal - em mim].

Eles tornam e voltam esquecidos,
como um corpo aceso
pelo dia que antecede a fragilidade
branca da memória.

Recomeçamo-nos  por cada olhar
quase desentendido  às voltas,
ou melhor, digo: dominados pelo
esquecimento rápido da boca.

Avançamos luz adentro no agora dia 
 distante do sonho  vesperal momento.
Falas-me de ti & da força expressa
ao abatimento repetido dos braços.

Transforma-se a luz ao vício 
da noite  deténs-te ao cansaço – 
por todo o silêncio que te detém.

terça-feira, 29 de março de 2011

a imensidão da memória
















Procuramo-nos bucólicos,
no meio do arvoredo 
[plantado] entre nós e o
enredo presente de betão.

Distraímo-nos citadinos
no meio do cimento 
[cumulado] entre nós e a
verdura distante do campo.

A urbe teima e faz-se notar
por aqui. Rasgados aviões
cortam os céus como facas 
levitam no topo da imensidão:
 um azul [claro] de memória.

O fim da tarde aninha-se
ríspido, trazendo um aperto
propagado às artérias: são
os ponteiros que avançam:
 pelo pulsar do coração.

sábado, 26 de março de 2011

síntese















                                                  Para todos os meus leitores.


É urgente resumir aquilo que vejo
desde o esplendor de «Trafalgar
Square». Mas não resta simples
este resumo. Tenho acordado

a todas as horas desde Londres.
Como se a cada minuto que passa
ficasse mais perto desse ponto
de mira –  que pulsa –  presente.

Outras coisas há que se repetem
vezes sem conta. Há rostos repetidos
que nos centram pela clarividência
à firmeza da nossa síntese. Ou por

outra, direi: um resumido desejo
que se reverte centrado em nós.
Quem nos legenda o futuro
no momento que nos prediz?

quarta-feira, 23 de março de 2011

«forgotten»

















Já todos se sentiram vetados a um certo 
esquecimento [pelo menos uma vez na vida].
Outros desejaram receber a correspondência
certa, dentro dessa caixa fechada por onde

se esconde o coração. E não há chave ou 
código que nos valha para decifrar o enigma.
Um afastamento de um mundo tão real quanto 
as brancas pedras negras desfeitas entre

o cinza da chuva na calçada. E há pássaros 
que irrompem o todo silêncio, questionam 
a quietude da voz que implode ao final 
da tarde no peito. A luz acompanha a ruína 

de um certo esquecimento, apaga-se pelo 
entorpecer das horas que deixam de fazer 
sentido, uma e outra vez. Há um copo 
de gelo que se desfaz num líquido perfeito;

assiste quieto ao desdobrar branco 
de um deserto instalado pela casa. 
Acende-se depois um rastilho púrpura 
nas palavras atadas ao resignado acto 

de escrita. E de forma, diria, quase cons-
ciente, retira-se da ideia ou verso inicial
a clivagem necessária no resto que não há para
lamentar, para esquecer, ou se [quer] ver esquecido.   

quinta-feira, 17 de março de 2011

«no regret»
















Estarei longe de ser o fiel depositário
da tua verdade? Os meus cigarros
eu próprio faço e nem tanto me moem
quanto o próprio esquecimento.

Ontem ficou tarde para tudo quanto
em nós foi. Desencontramo-nos entre
todas as horas, tal como os meses
se demoraram frios ao passar.

E agora a noite – reconhece-me como
a mais ninguém – pressente-me em gestos
que desconheço, tampouco sei onde vão.
Talvez seja o medo, o mais sereno de todos

os passos, a mais pura verdade que se esconde
dentro de um silêncio (que não se abre a ninguém).
Ficará sempre tarde quando não vens, quando
não estás, quando não voltas para ficar.

Fica difícil habitar num mundo onde as janelas
se parecem fechar num torpor de inverno.
Não fica fácil perceber por que caminho
ou expediente se deve endereçar tal vazio.

Terminaria dizendo:
que me faz falta a tua serenidade;
O mesmo será dizer:
o teu equilíbrio e o fim do poema.

sexta-feira, 4 de março de 2011

aconchego das mãos



















Planta-se uma vida
a vermelho sangue
planta-se um amor
na destreza das mãos;

planta-se um rumo:
por linhas dispersas
reféns de um desejo:
de um futuro azul.

Olha-se a doçura
nas maçãs do rosto
& regressa-se à pressa
pela fúria da queda.

Entra-se pelo escape;
no poder do acaso
destino presente;
& definem-se rotas

às redondezas da carne.
Sente-se longe a espessura
de um grito, sinto-te perto
no aconchego das mãos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

sorriso
















Trazes o sorriso de um copo
meio vazio, entre almofadas
e cortinas de ninguém.
Deixo que o reflexo da sílaba
morra junto ao rodapé descalço,
rente ao chão.

Há sílabas mortas, espalhadas pela semântica
da casa. Há palavras que chamam por ti
entre escombros. O cenário é desolador, minto,
é um misto entre a transformação da madeira
que envelhece para além do tempo
que subsiste entre nós.

Os quadros desalinham no abalo,
e as crianças dormem – por fim ­–
nas profundezas de um sonho.
A tua sombra confunde-se com a sombra
de uma rosa que levita imóvel
ao centro da mesa.

E eu sou meigo e doce áspero e fel,
sou a pétala que seca na rosa sombria
do poema. Sou o olhar que se despenha
contra o lume na fronte dos prédios
iluminados pelo fim da madrugada
.

Sou o copo [ou meio copo vazio]
que trazes num sorriso despejado,
sou a mão que te prende ao mundo
onde adormeces – por fim ­– .