AGOSTO 2010

cafésolo

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OUTUBRO



Outubro comprido, longo, extenso,
como os teus cabelos castanhos
subtilmente tingidos no ouro,
que reflecte esse sol arrefecido,
inclinado, afasta-se de nós não opresso.

Tantos dias teríamos de contar, para afinal
concluir a tua dança assim, sem clamor
ou labareda que interpele as tuas águas
inóspitas, correntes que te seguem
por entre valetas e agueiros tão frequentes

como as noites em que escrevo.
Da tua essência Outubro, guardo em memórias
galochas que estreava a caminho da escola,
as castanhas e a sua aparição súbita, tal como
o fumo nas chaminés cinzentas, que compunham

todo um diverso e propício quadro,
longínquo, extenso,
como os teus cabelos castanhos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

COBERTURA INCERTA



Passamos horas sentados no telhado,
assistimos sem vertigem ao despir
daquele momento, observamos depois as luzes
que irrompiam sob um soalho plástico da cidade.

Trocamos o silêncio pelo engano dos sentidos,
projectamos a queda e a ascensão das coisas
que haveriam de cravar-se por entre os poros
que respiravam a custo, sem acusar.

Pouco importariam certos rudimentos,
fossem arte ou meras eloquências estranhas,
pareciam esquivar-se por entre as telhas
como as pingas caídas de um súbito aguaceiro.

Chegaram os primeiros ventos,
trazendo aquelas pedras cinza
que se nos atravessaram na garganta,
essa matéria prima inelutável

que nos elucidou, desse axioma invencível;
[Ficaríamos sós, ante um soturno e vago inverno.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

INGRATO



Ingrato.
Talvez fosse um tipo ingrato,
num sentido puro, lato.
Podia ter sido talvez,
esse rebento viçoso, seco depois,
pelas tenras nervuras do teu corpo.
Seria quem sabe,
um grito que não se sente,
pelo furioso mascar da ilusão
que desvanece.

Podia ter vestido, sem saber,
a pele e a fome do animal
sem rumo ou altivez.
Sei que poderia ter sido
o auge dessa cor esbatida,
na parede por pintar.
Seria quem sabe,
um «por tudo e por nada»
desse inevitável ocaso,
nato, de uma semente estéril,

despida e vazia de ingratidão.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

FIM DA TARDE [SERRALVES]



Procuramos esse lugar bucólico,
o arvoredo ali plantado cruza-se
com um emaranhado de betão
que compõe e distingue a cidade.

A civilização teima em fazer-se notar,
vários aviões sobrevoam o azul
como facas que cortam o cenário
demasiado exposto na urbe.

O fim da tarde aproxima-se, trazendo
com ela o aperto que se transporta
intrínseco, entre artérias e equações
multiplicadas em rostos distantes

de sentido único. Daquele verde rústico,
sobrevivem apenas os espontâneos
murmúrios, como os aplausos soltos
plas ramagens, que dançam ao som

de um vento;

que nos sopra e embala o caminho.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

SALA INQUIETA



A sala inundou-se em remotos olhares
provenientes de diferentes paragens.
Parecem contar-nos angústias e medos
escondidos em vidas perdidas,

caminhos trilhados em solas gastas,
na erosão de um tempo que não perdoa.
Na sala, encaro essas tristezas gratuitas,
sente-se uma espécie de ar agitado

numa revolta que se detém,
sem respirar.

domingo, 20 de setembro de 2009

FIM DE ESTAÇÃO



Deitei os meus lábios nos teus,
como as folhas de Outono
se deitam incertas, nessa queda
eminente, ao sabor do vento.

Fazia-me falta aquela música,
que controlava e preenchia
certos espaços vazios e inventados,
entre as costelas de um peito

armadilhado. Guardo de ti
uma imagem ténue, radiográfica,
como se fosse a derradeira nota
assente, num epílogo anunciado.

Daquele verão que morria devagar,
nada mais sobreviveu. Volveu a chuva
e com ela a vontade enxuta em disfarçar
os restos de um destino verde,

------que não me pertencera.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CHAVE DA MONOTONIA


« - É urgente calar as armas da discórdia,
parar e pensar:
há feridas que alastram
o mau uso das palavras.»

Naquela tarde, tudo fingia estar no seu lugar,
os livros amontoados na estante,
a roupa atulhada obstruindo a visão,
o aspirador que rosna em cada divisão,

o telefone que toca e não cala.
Os números encalham,
a vida segue impávida e implacável
(parece dizer à socapa que este dia

não se repetirá). Como sempre,
tudo se atrasa porém. Nos arrumos,
riem-se caixas de papelão poeirentas
envoltas em teias de aranha frágeis.

Um copo de gelo quebra a monotonia,
entra em cena o malte que defuma
a respiração e o travo ácido da jornada,
entre um e outro cigarro, repetem-se

as prudências injectadas na pele,
quebram-se agora noite a dentro
os fios que sustêm a promiscuidade
indecifrável, de um bilhete de 2ª classe.

Tinhas razão, há gritos no nada:
este dia não acaba?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

EM RUMO



Aprendi a destilar-te
sou o alambique
da tua existência,
separo impurezas de ti,
vejo por grosso mais além.

Saí desse sono estranho,
olho este sol de frente.
Para trás ficou a sombra
daquele que eu não era.
(Será tarde para engrenar

o sentido?)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

CHÁ DE OUTONO



Julgavas saber, mas talvez não saibas
de que é feito um Outono de chuva.
Os telhados luzem como cristais vivos
cegando depois as palavras ocas.
O medo dorme só,
no quarto dos fundos

ao lado da solidão.
A tua vara sem condão
esgaça a palavra amor.
Na mesa de esplanada
riem-se caras sem dentes.
Não há nada mais deprimente

que a tristeza do teu poema.
És fria, doce e cruel.
O fantasma que me sussurra é branco,
dança numa luz que penetra
os telhados de cristal,
numa tarde de Outono sem chuva.

São estas lágrimas secas
que fulminam afinal
as rugas de um rosto
cansado da sua disputa,
talvez cobarde mas sempre única.
E, no sal ressequido dessas lágrimas,

peixes de olhos grandes
hão-de vir ao mundo que os há-de comer.
A cada verso, nascerá mais discórdia,
o vento frio abalará as folhas mortas da Tília,
jazidas num chá que vive, orgulhoso e bem vestido
de mão dada com a sua arrogância.

Talvez não saibas mesmo afinal, de que é feito um Outono,
vestido pelos farrapos desse armário que chora.

sábado, 12 de setembro de 2009

CAMA DE FOGO



Leio-te nos lábios
fragmentos desse puzzle,
que afigura o tecido
com que cobres o corpo,
urdido nas noites
preenchidas pelo nada.

Estávamos deitados
no exacto momento
que desataste as palavras
dessa meia verdade,
que dizes ter sido
disputada a dois.

Desse teu postal rasgado
apenas sobra a tua metade,
reprimida,
no canto mais esquecido
da tua própria casa.
Brindo a esse sorriso

solto, eclode em nós
um desejo que penetra
a posse da própria carne.
Depois, tocaram-se os corpos,
crivados num lume que inflamou,
a imensidão dessa cama

emergida, na escuridão.