AGOSTO 2010

cafésolo

sábado, 19 de fevereiro de 2011

apuro


















Um impulso corrompe
um martírio, ou o seu
oposto – como direi –
o apurar da noticia;

a verdadeira razão de um
suor empenho: um enfado.
Emocionalmente perdeste
a ligação com o mundo.

Rasgaste o «kit» de sobre-
vivência, ultrapassado
que está o prazo dessa
validade. E não há mais

nada para romper; nada
que te prenda à matéria
ou má sorte em que dormes.
E os outros, os outros todos

preferem, ou ainda melhor:
parecem escolher morrer
sós, escondidos desde o alto 
da escarpa. Disfarçados vão

entre medos e suores frios, 
entre o amor e os ódios todos
do mundo às traseiras da vida.
Perdem-se os dias, os anos,

o cabelo e os dentes, o caminho
que não se escolhe como ao nosso
próprio sangue. Bebem-se amargos
 – engolidos venenos – e foge-se,

foge-se de tudo e das sombras do
nosso corpo; por fim escapa-se
[quase ileso] a esta espécie de mau
agoiro – que se desata – sem querer.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

uma certa ideia de futuro
















Não tenho mais um passado.
São pedaços partidos de um
espelho tão perdido quanto
a luz – por vezes –  de uma

certa ideia fosca de futuro.
Ficará sempre por saber ou notar
a quem pertence a chave [afinal]
das primeiras tardes de sol

na esplanada. De quem é a pele
salteada entre os livros de um certo
veraneio que se acende depois.
Ficará em ti por contar uma certa

ausência desarrumada entre o ferro
e as cadeiras que rangem – longe
das mãos – na firmeza do cimento
deste chão. Ficará sempre por saber

quanto nos custa a espera dessas tardes
azuis, ou mesmo, uma certa ideia
esquiva de futuro que se escreve como:
ânsia, medo, angustia ou solidão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

corpo-a-corpo-boca-a-boca

















Fazes-me ver longe quando estamos perto.
Primeiro concentro-me na tua boca
e depois no riso disperso dos teus olhos,
nas imensas centelhas também dispersas
aos três cantos da sala, porque o quarto
canto somos nós, olhando-nos:                           
boca-a-boca-corpo-a-corpo.

Camuflamos um ou outro sorriso no apelo
ou simples permuta da boca encerrada
às palavras, como uma espécie de pacto
de silêncio – por mil imagens roubadas.
E voltamos para repetir as metáforas
de um não futuro que se adivinha,
como este tempo que nos ronda devagar
e nos faz ver longe quando estamos perto.

Regressamos por uma espécie de distância
presente, por um mesmo caminho onde nos
inventamos intactos, digo, por um caminho
onde nos construímos sós, – como as quatro
paredes no silêncio da sala – & tu, és tudo
quanto meus olhos requestam ao lume
brando que nos devora:
                           corpo-a-corpo-boca-a-boca.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

registo químico














Éramos de um tempo em que as dúvidas 
ultrapassavam a espessura gélida de dez 
invernos. Achados assim, por quase nada, 
por um quase modo circunstancial de ser, 
éramos de uma espécie de registo químico
vetado a um aleatório acaso, dir-se-ia:

um acaso inevitavelmente igual.
E ficou tarde para travar esse impulso
que crescia – entre a vaga alastrada
no lume – de um vazio combustível no peito.
Ficou tarde ou urgente para nós o tempo, 
as palavras que nos alcançavam

como o resto dos dias cresciam 
à luz de um verão que irrompia 
a brandura branca das paredes 
da casa – votada a crescer no amor –  
por onde nos regressamos ou então 
nos tornamos para voltarmos a ser. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

escrito nas rosas




















Há uma voz que se prende
à distância de um caminho breve 
e cada vez mais próximo.

Dizem-nos que toda a existência
é breve e que todos somos a face
de uma mesma distância gasta.

Dizem-nos ainda que nos recordam
pelo brilho com que fomos perdendo
uma certa inocência.

Olho-me de frente para a luz 
para a mesma razão com que ignoro 
a minha própria cara, e rejeito liminar 

modo ou processo de olhar, essa mesma 
distância que não me pertence
tal & qual o escape por inventar.

Pouso no alto da minha caneta
e desfaço-me pelo rosto replicado
no espelho baço. Escrevo e digo

e não digo nada daquilo que porventura
deveria ficar escrito nas rosas. Faço e vou,
consigo e aconteço, da mesma forma

que fria a morte nos serve na espera.
E o leitor para no verso e pensa a morte,
escreveu-se morte desde que existimos,

desde que uma voz em nós se desprendeu.
Desde a distancia gasta ao caminho,
até ao anseio que nos segue indiferente 

do medo ou modo de inexistir. Como se 
toda a nossa verdade ficasse inscrita
junto às rosas. As rosas turvas do fim.

domingo, 23 de janeiro de 2011

memória da pele






















É tua a primeira imagem
que me traz o dia. É esta
a memória por onde «Franz
Schubert» agora irrompe.

Os dedos finos dissipados
num piano plural, no apenso
de outras coisas ou pessoas,
mais ou menos indiferentes:

a «Schubert», ao ritmo que nos
avança ­– mais ou menos perdido –  
entre o toque macio das mãos.  
É esta a sinfonia plural [mente] in–

completa, entregue ao silêncio
que nos ronda entre veias, mil
imagens perdidas no poema –
também ele perdido ­– entre nós

de uma memória intemporal da pele
que avança ­– por cada imagem tua.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

momentos há que

















Momentos há que nos avançam
para um irremediável ou inevitável
tempo que nos resta – desgastado;
como um irremediável & repetido
momento perceptível aos ossos.

Tal como se tivesses adormecido
num final de tarde qualquer e,
acordasses depois irremediável-
mente só, arrefecido em ninguém,
entre o vazio da sala que ocorre.
                                                      
As palavras pesam-te quase tanto
quanto o segredo dessa poção
que se esconde – junto à pressa de
morrer – fora do alcance do cimento
da cidade irremediavelmente vazia.

E há sempre um enorme fundo de verdade
em cada poema; [pese embora: nem tudo 
fique dito] ou há sempre uma verdade que
se oculta inexplicável, pela mesma razão
metafisica de ser  –  & que nos ultrapassa

                                                devagar ?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O dia é teu













                                           


O dia é teu. Aceita-o 
simplesmente. Hoje, porque 
te encontro dentro das palavras 
que trago entre mãos.

Porque te acho
a cada figura que os olhos vêm
pela quietude que se nos escapa
como areia fina entre os dedos.

Porque me dizes
sob a forma mais simples,
a tua forma simples de dizer  
o peso da palavra: 
                                      Amor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

não sei se sei
















Não sei se sei.
Este rumo ou modo de ser,
a porta fechada na passada
por abrir. Sim, esta difusão
difusa por entre ideias tortas;
são ondas tão turvas
quanto concretas.
De memória curta
mas convexa, longa
mas simplificada,
a divisão ou o lado oposto
ao canto do quarto
que nos sobra encerrar:
[não sei se] – amanhã?

domingo, 2 de janeiro de 2011

caminhar
















                               Para todos os meus leitores & amigos
                              um ano de 2011 feliz.



Caminhar ao abrigo da boleia
do tanto que julgamos ser nosso.
Punhos serrados, posição de combate,
a firme certeza contra a armadura
fria das palavras fáceis dos outros.

Caminhar contra isto, contra aquilo:
caminhar! A certeza pura dessa afirmação
vazia que não se queda em si mesma.
Caminhar, sem deixar morrer as palavras
de quem connosco corre um meio caminho.

Esta espécie de léxico novo que nos
encanta, encaminha ou recomeça
em cada avanço, a cada recuo.
Poder-se-ia dizer, até:
filtrado ao nosso percorrer.