AGOSTO 2010

cafésolo

domingo, 7 de outubro de 2012

pedaço de outono



















Que verão é este em que vamos
despidos de mudança?

Quem nos traçou este mapa
entre a tinta da china vertida?

Que é feito das vozes que nos
encaminhavam pela escuridão?

Porque se esconde o medo das folhas 
entre o marrom quente da tarde?

Porque avançamos sem abalo
do lugar marcado que temos?

Quem nos responde às dúvidas
desta estação sem tempo?

Onde te escondes, porque
não te avisto por perto?

Onde vamos, quem somos,
porque nos devastam assim
como se fossemos
pedaços de ninguém?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

a casa que era e já não é




A porta da frente sempre aberta, revelando
o bater de uma aldraba que estremece.

As tábuas longas e enegrecidas pelo
tempo, o fulgor de um corredor cuidado-
samente encerado a joelhos. Ao meio:

o cruzamento da porta dos aposentos com a 
da grande cozinha. Ao fundo: uma outra porta
e mais quartos cuidadosamente vigiados pelo

lustre no cobre antigo das caldeiras. Era uma
casa enorme, tão farta quanto a nossa infância.
Havia uma porta nos fundos que se encerrava

quando a luz se perdia e a noite se apossava
dos nossos corpos. Mas era acima de tudo uma 
casa de gatos com nome e de cães com coleira:

“Doggy, Miss, Fisto, Lhau ou Piaui” entre
outros nomes que a memória nos rouba
como a casa que era e já não é mais nada

senão a reminiscência retida pelos versos
e por outras palavras.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

28-03-2012




















                                                 para o meu irmão Mário.




Não fica fácil deixar os nossos para trás.
Uns sobre outros detêm-se na firmeza 
de uma data. Um estranho cômputo
por onde vamos perdendo o balanço.
Levam consigo um pouco de nós, 
uma espécie de memória viva
que comporta o vazio que nos resta.
Retalham-nos – a sangue frio – a parte
que deles nos pertence, sem qualquer tipo
de aviso prévio ou direito a reclamação.

Depois seguimos, fingindo nada ter acontecido.
Como se fosse possível omitir a amputação
de um membro, de um órgão ou de um coração.
A verdade é que não resta fácil a tua ausência.
Lá fora, há um todo abril que chora angustiado,

talvez, paradoxo pareça, por teres obtido
[finalmente?] a paz que sempre ansiaste?
A liberdade que sempre perseguiste?
Ou a vida a que te impuseste?

Agora Mário, pouco importa saber.  
Deixa que se exalte – nem que seja
apenas por hoje – o egoísmo a quem fica, 
e que esse espólio que nos deixas possa viver 
para sempre, nas imagens que ficam 
neste destino sem nome, nesta ferida
                                                           [sem cura.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

o tempo passou, minha irmã
















para a minha irmã, Elsa.


O tempo passou, minha irmã,
e nós, já nos demos conta
de não existirem mais peças
que sirvam aos nossos moldes.

As dores, essas, instalaram-se,
como os anos que nos colhem
apressados «season after season».
Será que ainda sentes o aroma

fresco – da cevada e do trigo –
de uma infância que nos molda?
Talvez os sintas, por certo, no repicar
Fresco da memória como o cansaço dos dias. 

Quanto ao resto:
nada de novo, dois corpos distantes 
acalentar medos que dantes não existiam. 
Como o tempo que urge e não se esquece 

de quem somos ou para onde vamos.
Talvez hoje não estejamos assim tão longe 
dos rostos felizes que emprestávamos 
ao registo mecânico das fotografias.

Passou o tempo, é certo, e nós estamos
vulneráveis como nunca o fomos na casa
da avó «Mami», onde tão cedo aprendemos
o sentido ou o peso da palavra – Amor.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

«spleen mirror»















Há uma luz que resta conjugar:
tal como o verbo alienado –
­por uma acção repetida-
mente adiada – a incerteza
maquinal de toda uma vida.

Observo a indiferença
na espessura dos dias.
A robustez do aço 
ou a cidade que nos 
molda por dentro.

Espelho-me na densidade 
de um todo pensamento.
Na força dessa lâmina  
que nos corta a língua 
e o coração das palavras.

Penso e adormeço 
sobre desordem 
que silencia  
verbo por 
abrir:

o mesmo erro repetido
no tempo?
Ou os braços 
maquinais 
de toda uma vida?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

#o teu sorriso




                                            

Eu procurei avisar-te, mulher:

para a inexistência da perfeição; 
ou por outra:
que ela existe sim, na mesma medida
em que a beleza das coisas existe e vive
efémera, como um ciclo que dura
para além de toda e qualquer ilusão.

E que apesar de tudo não nos perfura
a alma como os punhais da desilusão.

Sucederam-se os meses
(a que chamamos passado)
e de cada vez que te escondias
entre a espessura dos dias 
encontravas o remate perfeito
na «simetria» do poema.

E a perfeição não existe,
ou por outra:
apenas o teu sorriso existe,
como um embalo que eterniza

                         [a métrica do amor.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

#insónia















Irrompi pela insensibilidade
dos sentidos, por essa abrupta
mancha chamada insónia.  

Pairava na minha cabeça
uma espécie de agonia
desvairada como um vírus:

Eu era um fiel guardador
de navios. Sim, essa ideia
desvairada ressoava pelas

paredes urbanas dos prédios, 
como a agitação do vento abalava 
a loucura do mar pelas janelas.

Lá fora toda a madrugada 
ardia dentro da inércia 
fria dos objectos. Parecia

vigiar-nos numa relação im–
provável de sentimentos. Ardia 
num todo desassossego aceso

pelos archotes antigos – da nossa 
existência. Como uma espécie 
de relação de ausências quiçá
                                                            
                           [perpetuada
     
pela firmeza do esquecimento.   

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

#fantasma negro

 

Sou o fantasma negro da tua solidão.
Sou essa espécie de penumbra onde
repousa a réstia feliz da tua inocência.
Sou esse teu abandono. Sinto todo o abandono
a que os fantasmas te relegaram. Uma espécie
de silêncio tão pesado quanto distante de todas
as moradas esquecidas da tua infância.
Sou essa memória triste que implodiu dentro
das pedras, um amor frio em sangue quente &
derramado entre as paredes carnais do desejo.
Sou esse reflexo passado



                                        & distante que corre
entre as veias. Sou esse cada instante por cada
imagem que trazes, por cada esboço que és.
Sou a memória dessa paz que em ti repousa
hereditária e secularmente muda.
A memória desse tempo ou desse amor in
condicional. Um amor carnal onde as mulheres
eram o pão e os pilares da nossa história.
Uma história que se nos aconchega aos ossos.
Como este corpo vazio na angústia da sala.
Como se de um fantasma triste se tratasse.

domingo, 9 de outubro de 2011

jogo de palavras

 


Coisas pequenas, jogos de cartas em palavras,
digo, jogos ardilosos de significados escondidos
entre mãos – como quem desfolha um dicionário
de toda uma vida – que deixou de fazer sentido.

Existe uma ordem aparentemente anacrónica
que fria e cegamente se afasta da sua própria
história. E eu digo: toda a matéria se questiona
no tempo, na sua ordem ou causalidade natural;


na precisa hora em que se ditam amarras de
toda uma vida. No preciso momento em que a
matéria deixa de ser matéria e passa a ser pó
como vento que beija o exacto perfil do outono.

Coisas pequenas, coisas de embalar, coisas
frágeis de partir, coisas que invadem o nosso
espaço, sobrevivem a este tempo, um tempo
encerrado por cada instante – por cada história


frágil – de fraca raiz. Uma história dispersa
que se afasta do paradigma em que vamos,
uma espécie de axioma longínquo mas perfeito.
Eu agora mergulho no absorto mundo pássaro,

olho as tuas asas e replico por esse caminho
derramado de sangue, de pequenos horrores,
devastação. Como o vício que nos representa
neste jogo repetido, viciado. Somos maioritária

e repetidamente escolhidos, ou por outra,
entregamos-nos simplesmente à passividade e,
caímos a pique nesse tempo que se esconde  
do próprio tempo, pelo mesmo instante que 

                                                           [se esquece depois. 


Como este jogo perdido que 
se encontra viciado à partida.
Ou será nosso predestino perder
este jogo de palavras assim?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

por estes dias longos

 



E cantar era conceber uma estrela,  
um testemunho da mais alta loucura

Herberto Helder


Sigo o relento destes dias longos
tão distantes do alcance dos dedos
como o medo puro das rosáceas
cravadas por instantes na carne.

Intermitências de um sol que se afasta
desta máquina clandestina e cantante 
como uma espécie de fé que se aninha
entre a loucura e a prudência da solidão.

Estamos sós, estancamos nossos medos
por cantigas antigas, de outros tempos,
«quiçá» mais felizes ou menos vivos.
Talvez seja o inverno que nos tarda;

Um medo frio de quem canta sem razão
ou motivo aparente, sem ritmo ou amor.
Talvez seja a poesia que nos pronuncia
diante da carne que envelhece sob a pele.

Talvez seja o medo do fim destes dias longos,
esquecidos como colecções antigas que fomos
deixando para trás como a nossa própria idade.
Talvez seja esta a estrada sem cabeça, por onde


impera uma certa loucura de uma certa
cabeça desvairada, desvirtuada do norte,
de um rumo ou plano “b”, que na verdade,
nunca chegou a existir nos escaparates


da nossa memória.

Talvez seja este cantar aturdido
por onde me trago perdido
uma espécie de vazio entre mãos
que se adianta lenta e ternamente do fim.