AGOSTO 2010

cafésolo

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O dia é teu













                                           


O dia é teu. Aceita-o 
simplesmente. Hoje, porque 
te encontro dentro das palavras 
que trago entre mãos.

Porque te acho
a cada figura que os olhos vêm
pela quietude que se nos escapa
como areia fina entre os dedos.

Porque me dizes
sob a forma mais simples,
a tua forma simples de dizer  
o peso da palavra: 
                                      Amor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

não sei se sei
















Não sei se sei.
Este rumo ou modo de ser,
a porta fechada na passada
por abrir. Sim, esta difusão
difusa por entre ideias tortas;
são ondas tão turvas
quanto concretas.
De memória curta
mas convexa, longa
mas simplificada,
a divisão ou o lado oposto
ao canto do quarto
que nos sobra encerrar:
[não sei se] – amanhã?

domingo, 2 de janeiro de 2011

caminhar
















                               Para todos os meus leitores & amigos
                              um ano de 2011 feliz.



Caminhar ao abrigo da boleia
do tanto que julgamos ser nosso.
Punhos serrados, posição de combate,
a firme certeza contra a armadura
fria das palavras fáceis dos outros.

Caminhar contra isto, contra aquilo:
caminhar! A certeza pura dessa afirmação
vazia que não se queda em si mesma.
Caminhar, sem deixar morrer as palavras
de quem connosco corre um meio caminho.

Esta espécie de léxico novo que nos
encanta, encaminha ou recomeça
em cada avanço, a cada recuo.
Poder-se-ia dizer, até:
filtrado ao nosso percorrer.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

fotografias antigas


















Fotografias antigas são
como relatórios presentes

de uma certa franqueza.
São aquilo que fomos ou

uma espécie de resultado
de uma antiga existência.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

amo-te




















                              Para todos os meus leitores & amigos, 
                              com votos de:
                              Bom Natal!



gosto de observar a vida
ver o sorriso estampado
no rosto dos outros.
já que por tantas vezes
não soube sorrir.

às vezes sou triste
como se tivesse direito
a um malogrado destino
a uma porta aberta
para coisa alguma.

uma estranha forma de existir,
eu sei. o caminho – por vezes –
afigura-se-nos diferente,
ganhamos novos alentos
[por assim dizer].

antes de ti
foram dias onde morri
a cada paragem de semáforo –
sob um oco vazio
as paredes distantes do corpo.

na verdade
talvez tenha levado demasiado tempo
a aprender a viver com este lado triste,
outras vezes a desejar
uma entrega simples ao fim.

apesar dos pesares
a vida foi-se abrindo
em cada luz verde
em cada semáforo aberto;
de ti se projecta uma outra luz

um outro modo de ser
ou sentido:
dito de uma outra forma:
amo-te!            

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

antigos esses tempos















Como eram [ou são] antigos esses tempos
de que te lembras. As músicas eram hinos
de vanguarda como vanguardistas éramos
quase todos. Usava-se o preto, os blazers

de corte antigo do tempo da sarja (não sei bem –
nunca fui "muito dado" às costuras) e as botas
ou sapatos «Dr.Martens» arredondando-nos à vida?  
Havia [sempre] "um quê" de punk misturado entre nós.

Uma mega-infância feliz. A música chegava-nos
via cassete dos quatro cantos do mundo
e os bolsos, apesar de mais leves, faziam-nos
hiper-felizes sem pestanejar. Subíamos as ruas

mais íngremes de Coimbra, por académicas calçadas
& sorrisos estouvados. E as memórias que se relevam 
de ti, talvez ainda vivam hoje, entre a medula mais
profunda e dispersa – o coração mais rijo da memória.

sábado, 11 de dezembro de 2010

equação





















Habitua-te a ser mais concreto
contigo. Não te escondas mais
atrás de um jogo de palavras.
Situa-te ao espelho, vê-te frontal!

Aproxima-te mais de ti e diz-me
a equação que vês. Oh o amor! O amor
e as suas voltas desbotadas contra
o rectângulo branco das fotografias.

Precisas mesmo dizer que falhaste
tanto quanto os outros até aqui?
Quem nos vem indicar o caminho?
Quem nos percorre por inteiro afinal?

É preciso dizer que tudo tem um fim,
que toda a matéria viva morrerá num dia
firme, contra a certeza concreta da memória
que voa, fora do alcance das palavras.

Um dia acordas assim, entregue ao vazio,
numa espécie de enfado ou destino,
o contra-peso ou ideia de balanço que tens
de um mundo arrastado no tempo, que vendo

bem, nunca chegaste a viver pleno. Pouco
interessa agora saber meus amigos, por quantas
cordas nos atamos por raízes soltas, por quantos
dias nos perdemos nesta prova real que é a vida.


Interessa sim romper
com o resto do tempo
que nos resta subtrair
no resto da equação
que nos falta resolver
                                   [a partir de nós.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

as nossas horas
















Era um género de essência oriental.
Um barco na deriva por descobrir.
A intimidade por tecer num olhar
[quase clandestino] humedecido
ao relento da noite
                             entre muros de prata.

Depois nunca existia amanhã.
Passávamos as horas a olhar pela janela
do fim do mundo na praça.
Reivindicávamos a nossa porção no pedaço
do território que nos fugia
                                      debaixo dos pés.

E era sempre tarde às nossas horas
e às vezes caía a noite
                                   aos pés dos outros.

domingo, 5 de dezembro de 2010

«rainy day»
















Na rua a melancolia de uma tarde 
quase perdida. A chuva efémera 
que nos empresta ao brilho baço 
das fotografias idas. Trazem-nos
de volta a um mesmo mundo pálido
& repetido (maybe lost – ou entregue
não sei bem – à largura dos passeios). 
Há uma combinação que se prende 
e confunde em nós. Imagens tão reais 
quanto mudas. Tudo parece passar-se 
– tão longe e tão perto como a nossa
própria vida. Tão perto e tão longe de nós, 
a quem o amor nada deve. Ainda o mundo 
& suas raras combinações de amor e silêncios. 
A inépcia que nos observa tão longe e tão breve, 
como a um todo resto de mundo perdido – 
a brevidade cinzenta no silêncio da noite.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

«it´s not too late»

















Queria saber escrever sobre a melancolia branca
e fina dos teus dedos. Grosso modo:
sobre a aleatoriedade mecânica do nosso amor.
O alcance firme dos teus olhos durante a pressa
da tarde. Mas fui escrevendo – como bem sabes –
sobre lateralidades – sob um cinzento frio na manhã
de outras coisas, aquelas que mais nos pareciam
perceber – sem legendas. Mas havia já uma pressa
alavancada à espessura da tarde que nos atravessava
diagonal, bem sei, [aquele lugar que tomamos
como nosso] uma espécie de pressa que foi
e não soubemos medir – por certo. Foi assim?
Pareces anuir tão bem no sentido quente e tímido
dos teus lábios. Adivinhava-te  – quase sem querer –
nos instantes seguintes. Quero antes dizer:
nos meses que nos antecipavam e sucediam depois.
A verdade é que continuei sem conseguir desvendar
por palavras a brancura lisa e fina dos teus dedos.
Tampouco o trato ou modo penetrado pelo teu gosto.  
Fizemos planos enquanto se ouvia Jeff Buckley, sabias?
This is our last goodbye» ­­ – ou «Lover, You Should've 
Come Over» [cause i feel] «Too young to hold on and
too old to just break free and run».] Depois eu disse:
- Ainda não é tarde de todo «baby», ainda não é tarde.